Blog

Sobre a grandeza das pequenas coisas

Minha melhor amiga morreu, e este texto é apenas mais uma das minhas inúmeras tentativas de elaborar um pouco melhor o que houve e, quem sabe, falar sobre algo que muitos de vocês vivem me pedindo para falar: colocar a teoria na prática e ser capaz de, de fato, exercitar todo o autoconhecimento.

Quando eu recebi a notícia de seu falecimento, às 19h30 da sexta-feira passada, eu chorei muito. A Gi estava muito mal fazia algum tempo, indo e vindo de hospitais sem encontrar alívio para as fortes dores que dois tumores na coluna pressionando a medula e metástases variadas pelo corpo estavam causando. Nas duas últimas semanas, um lado de seu rosto havia ficado paralisado, e ela havia começado a evacuar sangue, sugerindo que mais metástases tivessem acometido o trato digestivo e o cérebro.

Então quando eu recebi aquela ligação, apenas uma hora e meia depois de ter deixado o hospital onde havia passado a tarde com ela, uma parte de mim chorou de gratidão. Ela estava sedada há vinte e quatro horas, mal conseguia respirar. Na visita, eu havia segurado sua mão e percebia que, por mais chapada que ela estivesse, ela não estava inconsciente. Eu falava, ela apertava a minha mão. Fazia expressões com a metade do rosto que não estava paralisada. Em alguns momentos, parecia sentir dor – em outros, parecia que ia abrir a boca para falar. Em duas ou três situações, senti nitidamente que ela estava pedindo ajuda. A morte era o que de mais humano qualquer um de nós podia desejar para ela.

Mas nem por isso o processo de luto tem sido menos sofrido.

Eu acho que parte deste sofrimento vem do fato de estar constantemente colocando a minha mente como carro-chefe do processo de aceitar o que aconteceu. E a minha mente não aceita. A minha mente fica P da vida, ela repete incessantemente o mantra não faz sentido, esquecendo que para alguma coisa fazer sentido é preciso, antes, senti-la. Mas a minha mente não quer saber de sentir nada – não quis saber de sentir nada durante todo o processo de adoecimento da Gi.

Assim que soubemos que existiam metástases, lá me coloquei eu: no lugar da resolvedora dos problemas, postando sobre o caso nas redes sociais, pedindo ajuda de terapeutas que pudessem atendê-la. Quando foi decidido que ela ia se submeter ao Square One, protocolo de alimentação para cura de pacientes com câncer, lá fui eu comprar cúrcuma e clorella pelo mercado livre, como se não houvesse amanhã. Posso dizer o preço do quilo da cenoura e da maçã orgânica em três ou quatro feiras de São Paulo, de cabeça. Durante os dois últimos meses, eu FIZ muita coisa, talvez na tentativa inútil de me sentir no controle de alguma coisa. Eu fiz muito, mas muito pouco senti. E cá estou eu e minha mente tola querendo que as coisas façam sentido para, assim, ser capaz de lidar melhor com a dor inevitável deste processo.

Bobagem.

Se você é uma pessoa que também tem dificuldade de colocar na prática todas as coisas bacanas que na teoria te fazem sentido, questione-se: será que você também tem a tendência de dar muito mais importância pra sua cabeça do que pro seu sentir? Será que a sua mente também te mente dizendo que vai ser através dela que você vai resolver os problemas da sua vida?

Eu identifiquei esse padrão muitas vezes na minha vida, e acredito fortemente que viver a vida deixando a mente me levar é o meu BIG TOP VACILO DAS GALÁXIAS quando o assunto é colocar o autoconhecimento, o desenvolvimento pessoal e a espiritualidade na prática. Porque as grandes mudanças, as mudanças de paradigma e de atitude em nossas vidas, começam com pequenos passos. Ninguém levanta do chão e sai correndo uma maratona de uma vez – a grande maioria de nós passou pelo engatinhar, ou pelo se arrastar de bumbum, como fazem as crianças que não engatinham. Ninguém é alfabetizado e no dia seguinte escreve um best-seller. Todas as grandes jornadas da vida começaram com pequenos passos que, quando colocados em prática e repetidos consistentemente durante algum tempo, juntos, formaram um grande passo.

Mas, para a mente, nada disso parece ter lógica. A única coisa que faz sentido, para a mente, é pensar. E, com os pensamentos, toda a sorte de – por que não dizer? – babaquices vêm à tona. Porque a mente não funciona no momento presente, ela só funciona através da memória ou do planejamento, passado e futuro, o tempo todo. Enquanto o presente escoa entre os dedos, cheio de sensações, emoções e sentimentos.

E eu cretinamente me identifico com tudo isso.

Durante todo o processo de adoecimento da Gi, eu tive basicamente dois tipos de pensamentos. O primeiro se referia aos erros que ela havia cometido e que a haviam jogado nesta doença maldita. Afinal, o que custava cuidar um pouco mais da saúde? Precisa uma pinta crescer 200 vezes o que era no início e começar a sangrar pra filha da mãe correr no médico? Custava ter faltado um dia na porcaria do trabalho pra ir no posto de saúde brigar com alguém? Que porcaria de falta de tempo é essa, que te leva a uma morte dolorosa aos 56 anos de idade, com tanto tempo ainda pela frente?

O segundo tipo de pensamento se tratava justamente sobre o que EU poderia fazer para ter minimamente o controle sobre o que acontecia – tipo sair comprando suplemento e/ou dezenas de quilos de maçã e cenoura por semana.

E ambos os pensamentos eram apenas formas da minha mente se manter no controle da situação – entendendo o que poderia ter sido feito para evitar o que aconteceu e o que eu poderia fazer para que não acontecesse o que todos nós mais temíamos que acontecesse. Enquanto isso, exigia compreender um sentido oculto em tudo o que estava acontecendo, fazendo exatamente o oposto do sentir.

Só que, agora, a Gi morreu. E não me resta mais nada a fazer a não ser sentir, sentir, sentir. Não existe mais nada para ser compreendido. Não existe mais sentido algum a ser perseguido através do entendimento. Existe apenas um buraco enorme no meu peito e na minha alma, que dificilmente vai ser preenchido pelas vias racionais.

Então eu resolvi escrever esse texto aqui para o BLOG, porque eu sei que o que mais tem é gente como eu, que vive a vida através da mente ao mesmo tempo em que reclama que não consegue sair das teorias e colocar os ensinamentos na prática – e que, daí, começa a questionar os ensinamentos. Não são os ensinamentos que estão errados. O que está errado é a sua tendência e a minha tendência de achar que o mundo precisa ser mastigado pelas nossas mentes enquanto nossas mentes fazem pouco de qualquer coisa que não seja cientificamente provada, e questionam tudo aquilo que, logo de cara, não se relaciona diretamente com nossos problemas em si.

 

14 / Nov / 2018
Pesquisa Flávia Melissa

Comente esta publicação

Copyright © 2019 - Monica Contrim - Desenvolvido por Construsite Brasil - Criação de SitesAssinatura da Construsite Brasil